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02/19/2012 - No Comments!

A ciência segundo os filmes

Em outubro do ano passado, fui convidado a integrar, em Buenos Aires, o júri da décima edição do Cinecien - Festival de Cinema e Vídeo Científico do Mercosul, organizado, em 2011, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia argentino.

Além da ótima oportunidade de ver um conjunto amplo de documentários e filmes didáticos de vários países e debater com colegas de outras quatro nações vizinhas para definir os vencedores,foi-me solicitado que fizesse uma breve fala, abordando, da minha perspectiva, a relação entre cinema e ciência.

O texto abaixo é uma adaptação do que expus na Biblioteca Nacional argentina naquele dia. Foi uma possibilidade de rever algumas ideias e autores importantes para mim à época do mestrado e uni-los com o tema da palestra, com minha experiência na área ambiental e especificamente com a participação no Festival de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA, há vários anos.

O senso comum - e consequentemente os ambientalistas - partilha duas visões a respeito da ciência que, de alguma maneira, são transplantadas para os ditos "filmes ambientais": há uma ciência má e uma ciência boa.

A ciência má é aquela que gera a tecnologia poluidora e degradadora do meio ambiente - a ciência que constroi usinas nucleares e plataformas de petróleo, a ciência dos temidos transgênicos, que deu suporte à Revolução Verde e à moderna agricultura. Existe um exemplo clássico de filme que traduz essa visão: todos os anos no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, há sempre um documentário sobre a Monsanto, a multinacional do agronegócio, expondo os males dessa ciência comprometida com o lucro a qualquer preço.

De certa forma, esta ciência é, de modo mais abstrato, a face principal de uma modernidade desumana, fria e instrumental, que nos afastaria de nossa essência humana. Ela é vista também como elemento central de um paradigma equivocado de relação com a natureza, que queremos dominar.

A despeito do retrato um pouco simplório, esse parece de fato ser um aspecto da ciência hoje. Tudo se complica, entretanto, quando saltamos para o outro pólo, pois haveria também uma boa ciência, objetiva e honesta: aquela que defende aquilo em que acreditamos. É a ciência, por exemplo, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC, que prova, por A mais B, que a temperatura está subindo, as calotas polares, derretendo e o clima do planeta, mudando drasticamente. É a ciência que, com dados e métodos, explica a crise ambiental e aponta soluções para ela.

O problema é que, de um modo ou de outro, sem nos darmos conta, seguimos trabalhando dentro do paradigma moderno: sustentamos a ideia de que existe uma objetividade dura, e que o problema são os interesses políticos e econômicos e suas mãos sujas sobre a ciência, e não a própria ideia de uma objetividade dura e de universalidade, que é justamente aquilo que camufla os interesses escusos e as alianças complicadas entre o dinheiro e o conhecimento.

Não se trata, entretanto, de ser pós-moderno, e cair num relativismo niilista, mas sim, de assumir a máxima do filósofo Bruno Latour, que diz: "É claro que sou relativista, pois o oposto do relativismo é o absolutismo, mas sou um relativista que relativiza o relativismo".

É preciso, portanto, abandonar essa visão ingênua, de que existiria uma ciência boa e outra má. A crítica necessária passa pela desmistificação da ciência e por reposicioná-la como mais um olhar sobre as coisas e sobre o mundo, e não como o olhar.

Voltando aos filmes, nesses 13 anos de FICA, eles parecem refletir essa mudança, uma lenta caminhada em direção a olhares menos extremados e menos ingênuos em relação à ciência e à questão ambiental. De um quase monotematismo ao redor do binômio catástrofe/denúncia, vimos passando a uma diversidade de olhares, com o benvindo surgimento de muitos filmes de cunho mais poético e mais positivos e propositivos.

Não deve passar despercebido, nesse sentido, o fato de que o próprio documentário também, de seu lado, padece da mesma pretensão de objetividade que o conhecimento científico, discussão que sempre se encontrou no cerne do debate sobre sua linguagem. A raiz do problema é a mesma: a própria ideia de verdade, tal como postulada na modernidade.

Muitos documentários ambientais padecem desse problema e, por isso, resultam ingênuos, quando não francamente levianos. De um lado, por operarem a partir da ideia de uma objetividade dura - seja para acusar a ciência má de falta de objetividade, seja para mostrarem a sua ciência do bem. De outro, por se colocarem numa posição de donos da verdade, de portadores de uma mirada objetiva. Falando desse lugar, não se preocupam em matizar sua própria visão, sinalizando, de diferentes maneiras em sua linguagem, que o filme também é um ponto de vista.

O resultado é sempre um pano de fundo maniqueísta, quando não absolutamente melodramático, das questões ambientais, retratadas como um drama entre vítimas e vilões, o que nem sempre é necessariamente o caso.

É curioso pensar como a crítica, tão impiedosa em relação ao cinema clássico precisamente por suas abordagens melodramáticas e esquemáticas da realidade, pega leve ou mesmo aplaude, muitas vezes, documentários flagrantemente melodramáticos desde que denunciem injustiças sociais ou a degradação ambiental.

Este tipo de visão simplifica e empobrece qualquer debate porque afasta o espectador do centro dos problemas e de sua soluções: por mais que estes filmes nos revoltem, levam-nos, no fundo, à conclusão de que não temos nada a ver com isso.

Filmes assim fazem sempre soar o alarme, para mim, das advertências do crítico Inácio Araújo e do cineasta Eduardo Coutinho. O primeiro afirma: "Não gosto de filmes que me deixam sentindo superior a alguém, acho que há algo profundamente errado nisso"; e o segundo sempre disse que não gosta de fazer filmes "contra" ninguém, pois trata-se, no fundo, de uma posição muito fácil para o realizador.

Felizmente, esse tipo de visão ingênua parece gradualmente ser abandonada pelos filmes ambientais.
Dois filmes recentes, premiados no FICA, retratam bem as duas abordagens distintas a que me refiro: uma, ingênua, e a outra, complexa, tratando com inteligência o espectador.

"Bananas!*" é um documentário caudatário do clássico formato de filmes de tribunal e se assume como tal. Trata de uma luta de Davi contra Golias de camponeses nicaraguenses contra a multinacional Dole Foods. É um filme que termina com a sensação de desconforto e questões não respondidas.

Curiosamente, o vencedor do grande prêmio do 12o FICA, o chinês "Metal Pesado", de Huaqing Jin, também pode ser considerado um filme de denúncia, mas sua estrutura narrativa o coloca num terreno oposto ao desses exemplos anteriores. O filme retrata o cotidiano de trabalhadores chineses dedicados ao desmantelamento de sucata eletrônica, seguindo vários personagens e suas famílias, que levam uma vida de pobreza extrema. Sem locuções, em letreiros curtos e secos, somos informados do número de trabalhadores envolvidos nesta tarefa e das quantidades de lixo reciclado. Por meio de uma encenação ao mesmo tempo severa e comovente, acompanhamos o cotidiano e ouvimos os dilemas dos personagens.

Um amplo e estarrecedor panorama social e ambiental da China se compõe aos poucos como pano de fundo. No proscênio, cotidiano, melancolia e conflitos geracionais. Numa das famílias, o pai se dedica ao trabalho com sucata em função das dívidas contraídas para custear o casamento de dois filhos. Na outra, uma mãe se angustia diante de suas obrigações tradicionais quando o filho começa um namoro e anuncia que se casará.

Ao invés de afirmações, perguntas e dúvidas. No lugar de apontar, dar a ver um quadro amplo. Tempos mortos, silêncios e banalidades intensificam o incômodo do espectador e os pontos de interrogação, enquanto a China toda pulsa por trás do filme. Ao final, saímos perplexos e gratos por sermos tratados como seres inteligentes. Ao invés das lacunas de um "Bananas!*" puxa-se um fio e nos deparamos com todo um país.

04/21/2011 - No Comments!

Nostalgia, um filme sobre a saudade do sertão

"Agora - digo por mim - o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no comércio vestidos de roupa inteira de couro, acham que traje de gibão é feio e capiau. E até o gado no grameal vai minguando menos bravo, mais educado: casteado de zebu, desvém com o resto de curraleiro e de crioulo."

Assim, Riobaldo se dirige a seu interlocutor nas primeiras páginas do "Grande Sertão: Veredas", lamentando as mudanças que os tempos trouxeram ao sertão.

Há cinco anos atrás, quando gravávamos o "Quando a Ecologia Chegou", em seu rancho ao pé da Serra da Baleia, entre Alto Paraíso de Goiás e o povoado de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, seu Waldomiro expressava sua saudade da vida de vaqueiro naqueles sertões:

“Anteriormente, a vida era maravilhosa porque nós tinha três palavras na nossa vida muito importante pra todos nós: amor, receio e respeito, que era usada antigamente e hoje é poucos que tão usando. Isso tá acabando, tá em poucas mãos. A vida de ontem é incomparável com a de hoje, segundo a minha idade de 62 anos.”

Antonio Candido, no seminal "Os Parceiros do Rio Bonito" identifica nessa nostalgia o fenômeno que denominou "saudosismo transfigurador", uma expressão da perda de um modo de vida tradicional inapelavelmente extinto pela chegada, ao mundo do sertanejo, da modernidade, com suas relações mediadas pelo dinheiro e por uma racionalidade instrumental.

Do desejo de falar desse "saudosismo transfigurador", com o qual de algum maneira mesmo nós - cidadãos urbanos, modernos, cosmopolitas - nos identificamos, surgiu o roteiro de "Nostalgia", um documentário poético em curta-metragem. Tendo o discurso de Waldomiro como pano de fundo e linha condutora, o filme tenta tornar presente o vazio, buscando a aragem de um mundo e um tempo que não existem mais - de amplos horizontes, de um correr da vida lento e indefinido, de uma outra relação entre o ser humano e o mundo natural.

"Nostalgia" será rodado entre os dias 2 e 5 de maio próximo, em Alto Paraíso de Goiás.

FICHA TÉCNICA:

NOSTALGIA
Duração estimada: 8 minutos
Direção e Roteiro: Pedro Novaes
Direção de Fotografia: Naji Sidki
Direção de Arte: Úrsula Ramos
Som direto e edição de som: Thais Oliveira
Edição de imagens: Pedro Novaes
Produção Executiva: Antonio Guerino e Paulo Paiva
Produção: Paulo Paiva e Pedro Guimarães

01/12/2011 - No Comments!

Como falar bem de si mesmo e ser crível?

[vimeo http://www.vimeo.com/18641701]

Direção e roteiro: Pedro Novaes
Produção: Sambatango Filmes
Fotografia: Vinícius Aguiar/André Montelo
Direção de Arte: Benedito Ferreira
Edição e Gráficos: Ronei Batista
3D: Fred Brown

Fazer vídeos institucionais interessantes é um enorme desafio, mas de vez em quando a gente acerta a mão.

Em primeiro lugar, como fazer algo que chame a atenção e que minimamente desperte interesse, quando se está falando de coisas como engenharia, fábricas, serviços, indústrias, vendas? Todas coisas aparentemente sem muito apelo estético ou emocional.

Segundo, como fazer com que uma empresa falando de si mesma numa linguagem necessariamente documental transmita credibilidade?

Minha resposta parcial, e acho que ela encontra suporte no institucional acima do Grupo Tecnomont Sigma, está em dois caminhos associados: primeiro, em buscar histórias, exemplos vivos, que atestem o que se fala sobre as qualidades da empresa. Não adianta simplesmente afirmar nada: conte uma boa história e quem assiste irá tirar sozinho suas conclusões. Segundo, dar rosto humano à empresa. E isso não significa botar recepcionistas sorridentes em planos com travelings suaves, mas colocar as pessoas para falarem de fato e com espontaneidade - gaguejando muitas vezes, que seja - , sem olhar para a câmera, dando depoimentos ancorados em sua vivência e sua experiência, que ajudem a contar as histórias acima e demonstrar de forma crível que a empresa de fato é aquilo tudo que se está dizendo.

Isso não é fácil e nem sempre possível porque toma tempo e dá trabalho, mas o resultado é palpável. Imagine as mesmas coisas afirmadas nesse vídeo, ditas apenas por um locutor. Ficaria um vídeo muito chato e com zero de credibilidade.

Obter conteúdo assim só é possível com uma empresa disposta a investir, primeiro, na elaboração dedicada de um roteiro - eu conheci as obras, conversei com as pessoas, pude garimpar as histórias que no final compõem o vídeo -, segundo, confiar em nossa capacidade e investir também na produção.

Por fim, resulta também de uma produtora, a Sambatango Filmes, que também investe para entregar mais do que o prometido, sem economizar recursos para obter o melhor resultado possível.

03/02/2010 - No Comments!

Da Série “Xingu”

[vimeo http://www.vimeo.com/9188438]

A série de documentários "Xingu" se embaralha à minha história pessoal e da minha família.

Em 1983, quando deixou a direção do jornal Diário da Manhã, em Goiânia, meu pai, o jornalista e documentarista Washington Novaes, foi convidado pela Intervídeo, então capitaneada por Walter Salles, Roberto D'Ávila e Fernando Barbosa Lima para conceber e dirigir uma série para a TV sobre povos indígenas brasileiros. Os altos custos e a complexa logística envolvidos levaram à opção por um objeto menos amplo, de onde a escolha pelo foco nos índios do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

Assim, em agosto de 1984, Washington e uma equipe formada pelo fotógrafo Lula Araújo, o técnico de VT e som Antonio Gomes e o produtor José Carmo, partiu para o Parque do Xingu para um estadia de dois meses destinada a retratar inicialmente cinco etnias: Waurá, Kuikuro, Metuktire e Kren-a-Karore (que mais tarde retornaram a seu nome ancestral "Panará").

O resultado foi a série "Xingu - A Terra Mágica", em 11 episódios, exibida em 1985 pela extinta Rede Manchete, aclamada pelo público e pela crítica, premiada em festivais de TV pelo mundo afora e prestigiada com uma sala própria em 1986 na importante Bienal de Veneza. Alguns dos programas da série chegaram na época a atingir 20 pontos de audiência, feito inédito para a TV Manchete então e para uma série deste tipo.

Desde então, os índios passaram a fazer parte de nossa vida, sempre frequentando nossa casa, e muitos deles, ao longo do tempo, tornando-se grandes amigos.

[vimeo http://www.vimeo.com/9187317]

Em 1987, Washington retornou ao Xingu. Mais uma vez em parceria com a Intervídeo, realizou a série "Kuarup - Adeus ao Chefe Malakwyauá", que retratou um dos grandes líderes xinguanos e o Kuarup, a festa para os mortos ilustres no Xingu, que o homenageou.

Desde meados da década de 90, meu pai desejava retornar ao Parque para uma terceira série, que estabelecesse uma ponte com a série original e mostrasse as mudanças de toda sorte ocorridas desde 1984. Mas foi apenas em 2006 que o desejo pode se tornar realidade.

Com patrocínio da Petrobras e da Natura, através da Lei do Audiovisual, em mais uma parceria com a Intervídeo e desta vez também com a TV Cultura, Washington voltou a Xingu, desta vez acompanhado de boa parte de sua família, muitos de nós exercendo funções na realização do filme. Eu assumi a assistência de direção e a direção de produção de toda a série, na qual foram gastos 2 milhões de reais. João e Guilherme, meus irmãos, responderam pela Produção Executiva, junto com Cláudio Pereira e Roberto D'Ávila, da Intervídeo. Marcelo, outro irmão, fez a fotografia de still e ainda segurou a segunda câmera.

Na equipe de gravação, contamos mais uma vez com a mão tranquila de Lula Araújo. Antonio Gomes, por problemas de saúde, não pode nos acompanhar, apesar do desejo de Washington de contar com a mesma equipe, e foi substituído por Pedro Moreira.

O Lula é, para mim, um dos melhores fotógrafos de documentários do país, sobretudo em situações como as com que nos deparamos no Xingu, onde os objetos retratados não estão sob seu controle, as coisas acontecendo o tempo todo independentes da vontade de quem filma. O cara pensa e responde muito rápido, produzindo imagens comoventes mesmo nas condições mais adversas e sem nenhuma possibilidade de preparação prévia.

[vimeo http://www.vimeo.com/9187445]

Foram quase 40 dias divididos entre seis aldeias. Além dos Waurá, Kuikuro, Metuktire e Panará, foram incluídos os Yawalapiti - em função do papel relevante que seu falecido chefe Paru acabou assumindo na série de 1984 - e os Kalapalo - pois este povo hospedava o Kuarup daquele ano no Parque.

Resultaram quase 100 horas de material. Depois de muita reflexão e discussão com Lula, optamos pelo HDV como formato de captação, usando duas câmeras Sony Z1. Apesar de seus problemas e de não ser propriamente um formato profissional, revelou-se adequado para as características do projeto pelo custo mais baixo, pela grande quantidade de material precioso a ser arquivado - fazer isso em formatos sem fita ainda tem suas complicações - e pelo desejo de gravar em alta definição.

Seis novos programas foram editados - um programa de abertura e mais um para cada povo (o Kuarup dos Kalapalo foi incluído no primeiro programa) - e a série antiga foi remasterizada pelos Estúdios Mega com uma nova correção de cor e eliminação de dropouts no material analógico. Somadas, as duas séries viraram uma série de 16 programas, intitulada agora "Xingu - A Terra Ameaçada" (o 11o programa de 1984/1985 era apenas uma espécie de making of da série e foi excluído da nova sequência).

A série completa foi exibia no segundo semestre de 2007 pela TV Cultura e pela TV Brasil com grande resposta do público e da crítica.

Acima, você pode conferir a bela abertura montada pelo João Paulo Carvalho - que também editara a série original - junto com a Aline Nóbrega, e também duas chamadas exibidas em TV e em salas de cinema, como parte do plano de marketing da série.

02/10/2010 - No Comments!

O Dia em que a democracia derrotou o MST

O texto que se segue foi originalmente publicado no extinto blog "O Garganta de Fogo". Segue absolutamente atual, entretanto, em minha opinião. Depois de ler, se quiser saber mais sobre o filme que o motivou, o Quando a Ecologia Chegou, siga para o post abaixo.

Ninguém viveu propriamente até testemunhar de corpo presente um embate político em que o MST está de um dos lados. Não há nada mais instrutivo sobre a vida, a política, a esquerda e o ser humano.

Feliz ou infelizmente tive tal oportunidade na última quinta-feira. Deviam colocar saquinhos de vômito no verso do espaldar das cadeiras da frente como nos aviões e avisar os incautos sobre a possibilidade de náuseas e mau cheiro.

Explico: fui lançar meu documentário, o “Quando a Ecologia Chegou”, no litoral do Paraná, na Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, um dos locais onde foi filmado. O propósito era exibi-lo ao Conselho Gestor da APA (Conapa), órgão colegiado com a participação de inúmeras instituições e das próprias comunidades locais, responsável por assessorar o Ibama na gestão desta área protegida.

O Conapa é uma interessante experiência de verdadeira gestão participativa, distante das cortinas de fumaça e da retórica que o uso da palavra “participação” em geral significa. Trata-se de um trabalho sério, hoje referência nacional, que tem mudado de fato o comportamento de indivíduos, o relacionamento entre instituições e ajudado, pouco a pouco, a superar na APA o conflito entre conservação e desenvolvimento. É um trabalho que conheço muito bem: responsável e de espírito profundamente democrático.
Ocorre que, para azar ou sorte, há quase três anos, um grupo do MST invadiu uma propriedade localizada no interior da APA. Acampados, resistiram a qualquer tentativa de retirá-los dali, apoiados no suporte tácito que têm do Governo Requião e na inação do judiciário que não procede à emissão de uma reintegração de posse.

Derrotado, o proprietário se dispôs a vender a terra ao Incra, uma vez que ela não se enquadrava nos critérios de improdutividade necessários para uma desapropriação para fins de reforma agrária. O Incra então protocolou um pedido de licenciamento ambiental no Instituto Ambiental do Paraná para a implantação do referido assentamento que, ironia das ironias, batizou-se “José Lutzemberger”, em homegagem ao falecido ambientalista gaúcho, ex-secretário de Meio Ambiente da Presidência da República.

Ainda que o licenciamento seja de responsabilidade do órgão estadual de meio ambiente, como se trata de propriedade situada no interior de uma área de proteção ambiental federal, necessário se faz ouvir o Ibama, conforme dita a legislação. Uma vez que a referida unidade de conservação possui um conselho gestor em funcionamento, é também de lei que o colegiado seja consultado pelo próprio Ibama antes de emitir seu parecer sobre a matéria.

Previamente, o assunto já vinha sendo objeto de exaustivos debates no âmbito do Conselho que, colocada a questão, acatou inclusive o pedido do MST para ocupar um assento no colegiado.

Formalizada a necessidade de uma manifestação oficial do Conapa, nomeou-se uma comissão constituída por sete membros, da qual o MST uma vez mais fez parte, encarregada de analisar em profundidade o tema, consultando inclusive outras instituições, e elaborar um relatório que pudesse embasar uma decisão consistente.

Este relatório foi debatido e votado na última quinta-feira, durante reunião extraordinária do Conapa, realizada no Salão Paroquial do município de Antonina.

Como é de seu costume, o MST compareceu em massa. Atrás da meia lua de cadeiras em que se sentavam os 26 membros presentes do Conselho, aglomeravam-se quase uma centena de acampados, dirigentes, técnicos e simpatizantes do Movimento. Para minha surpresa, não portavam suas foices de costume, o que foi um alento.

O que mais impressiona de saída é a apurada capacidade da esquerda de corte comunista de encher a boca para usar a palavra “democracia” como argumento de força para justificar as práticas menos democráticas e mais autoritárias possíveis, precisamente na tentativa de deslegitimar um processo transparente e profundamente democrático, como têm sido as discussões no Conapa. Vem à mente a conhecida máxima de Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.”
A estratégia todo o tempo é a da pressão e da coação, pois evidentemente o diálogo e a reacionalidade trazem o risco de que se conclua que uma área de proteção ambiental talvez não seja o melhor lugar para um assentamento agrícola.
Desta forma, a aplausos ensurdecedores a cada orador do movimento que se sentava, se somava o apelo à emoção, mais uma vez na tentativa de fazer a calar a razão:

“No final da reunião, eu voltou pro conforto da minha casa pra dormir no meu colchão macio”, se inflamava o chefe de gabinente do Instituto de Terras e Cartografia do Paraná, aliado do MST, e continuava: “enquanto esse pessoal”, apontava os acampados do Movimento, “volta pro barraco de lona no frio e nessa chuva que está caindo. Pensem nisso, senhores conselheiros, no que os senhores estarão fazendo à vida destas pessoas humildes!” e blá, blá, blá, blá. Senta-se este e levanta-se um jovem engenheiro florestal, assessor técnico do movimento: “Se a lei não veda a priori a implantação de um assentamento rural na APA, o que sobra são questões políticas, é o preconceito de classe”.

Esquecia-se ele, em seu discurso nervoso, que o Conapa é composto por um terço de representantes das próprias comunidades residentes na APA democraticamente eleitos, tão pobres ou mais que os acampados. Preconceito de classe?

Este teatro do surreal colocou precisamente estes representantes comunitários na antes inimaginável situação de se verem na pele de opressores das próprias comunidades, dos pobres e dos humildes, um discurso que alguns deles frequentemente usaram no passado para se referir aos órgãos ambientais, aos ambientalistas e às políticas de conservação da natureza. O mundo, de maneira irônica, subitamente ficou de cabeça para baixo.

O representante do Incra, instituição igualmente aparelhada pelo Movimento, como se sabe, de forma grosseira e truculenta,se recusava a encerrar o uso da palavra que lhe fora concedida, desrespeitando todos os limites de tempo estabelecidos e atacando o Conselho de forma deselegante e verdadeiramente jumêntica porque apenas expunha o feitio dos que comandam o Movimento, ao risco de indispor o próprio Conselho com relação a seu pleito.

Mas a verdade é que o MST pouco se importa com isso porque seu curto e atávico raciocínio é tautológico. Consiste sempre em identificar um inimigo e tentar criar um embate truculento e tosco, ao mesmo tempo em que se faz uma forte cortina de fumaça soltando palavras de ordem que incluem expressões como “democracia popular”, “justiça social” e “excluídos”. É um trabalho duplo e paralelo: de um lado, o embate regido pela lógica mais autoritária da aniquilação do diferente, de outro, um discurso que desvia a atenção deste cerne truculento da ação para uma máscara de justiça e defesa do povo e dos pobres.

Desta forma, quanto mais o objeto identificado como inimigo reage e se opõe a mim, mais reafirmo minhas certezas sobre mim mesmo e sobre minha tosca visão de mundo. E assim seguem, encaixando o mundo na estreita forma de sua ideologia, ignorando miopicamente que as aparas que sobram do lado de fora da forma têm muito mais volume do que o que forçam para dentro.
Ocorre, entretanto, que o Conselho não mordeu a isca e o MST ficou nu para todos verem. Enquanto os líderes do Movimento sussurravam ameaças nos ouvidos dos conselheiros sentados à sua frente, o Conselho, fortalecido em quatro anos de verdadeira democracia participativa, discutia fatos, opiniões e elaborava sua posição.

Como o Governo Requião tem uma aliança tácita com o MST, os representantes de órgãos estaduais eram os mais fustigados: “Veja bem o que vai fazer, traidor, vamos levar seu nome pros seus chefes, você vai perder seu emprego.” E outros atos de corte ainda mais rasteiro que, por me haverem sido contados em off pelos ameaçados, infelizmente não posso relatar. Isso tudo sem contar as cartas levianas com denúncias infundadas e vazias contra servidores do Ibama que lutavam por um processo justo, transparente e democrático de avaliação da questão e que defendiam o trabalho do Conselho contra os ataques do próprio Movimento.
Nua, a arrogância da esquerda autoritária crescia em progressão geométrica e a tautologia da reafirmação de sua verdade continuava monótona e cada vez mais canhestra.

E o Conselho, que quase invariavelmente decide as questões que lhe são trazidas por consenso, tamanha é sua maturidade, não se furtou a votar uma posição sobre o licenciamento do assentamento: empate. Doze conselheiros favoráveis, doze contrários. O poder de minerva do presidente – pasmem, um pequeno agricultor representante comunitário – teve de ser invocado e sua posição foi contrária ao assentamento.

E assim, num dia nublado e ventoso à beira da bela Baía de Paranaguá, a democracia derrotou a truculência do MST. Não porque o conselho tenha se manifestado contrariamente ao licenciamento do assentamento, mas porque deu à esquerda autoritária uma lição de respeito e de diálogo, noções absolutamente alheias à formação cubana do Movimento.

O MST passou e o Conapa não se abalou. O salão se esvaziou e, sob a fina garoa litorânea, a pauta prosseguiu no mesmo espírito fraterno e de colaboração que caracteriza o espírito do colegiado. A despeito de posições radicalmente diferentes – uns contra outros a favor do assentamento, por exemplo – , os conselheiros são verdadeiros democratas e saem da reunião para beber cerveja juntos.

Enquanto isso, do lado de fora, uma liderança do movimento seguia a tautológica cantilena afirmando a outro: “Viu como repartiu direitinho? As comunidades votaram conosco e as ONGs contra a gente.”

Não sei se ele foi a uma reunião diferente da que assisti, mas na que presenciei ONGs votaram algumas contra, outras a favor do assentamento, comunitários votaram diversos a favor, alguns contra seu licenciamento.

A realidade é bem mais matizada e complexa, mas o que importa é prosseguir a cantilena a despeito da enorme quantidade de aparas do lado de fora da forma ideológica.

Saí do salão metade triste e metade feliz.

Metade triste porque não queria sentir tanta raiva e asco daquela gente. É justamente isso o que eles desejam. Triste também por constatar mais uma vez como se realiza a política na maioria dos chamados “movimentos populares” – de maneira brutal e autoritária – , um punhado de lideranças raivosas e arrogantes manipulando e doutrinando um bocado de gente fodida que aprende direitinho e muito rapidamente a cantilena. Triste porque isso me dá nojo e abala minha já precária esperança no mundo.
Mas feliz porque o Poder Público em alguns lugares como ali faz trabalho sério, apesar de todos os seus problemas. E feliz principalmente porque o Conapa é um pequeno exemplo de que a democracia funciona e resiste a golpes duros do mais sujo e baixo autoritarismo.

02/10/2010 - 1 comment.

Quando a Ecologia Chegou – Parte 1

[vimeo http://www.vimeo.com/9292490]

SINOPSE
E se nossas estratégias para preservar a natureza se tornassem veículos de injustiça social? Nos países em desenvolvimento, é comum que as áreas de maior valor natural abriguem, ou mesmo que sejam produto de culturas tradicionais e das vidas de populações locais. Por isso, nestes lugares, com frequência, a criação de unidades de conservação gera resistência e cria conflitos com estas populações. Quando a Ecologia Chegou aborda este problema delicado em duas áreas de preservação brasileiras, tentando mostrar caminhos para conciliar conservação da natureza e desenvolvimento.

Direção, Roteiro e Fotografia: Pedro Novaes
Produção: Paulo Paiva e Yuri Vieira
Som direto: Paulo Paiva e Yuri Vieira
Edição: Aline Nóbrega
Trilha Sonora: Olavo Telles, Luiz Fernando Climaco e Mamulengo Fâmulos de Bonifrates

Quando a Ecologia Chegou foi meu segundo documentário - o primeiro sendo "Os Vizinhos da Chapada", que é quase um ensaio para ele, feito sobre parte do material gravado para Quando a Ecologia Chegou. É uma tentativa de abrir para um público mais amplo uma realidade e certas reflexões que, de certa forma, levaram a meu distanciamento do trabalho com meio ambiente. Ao mesmo tempo, é um elo entre estes dois lados da minha vida profissional: meio ambiente, de um lado, cinema e vídeo, de outro. O filme aborda e critica - hoje acho que de forma leve demais - certo paradigma da proteção ao meio ambiente, isto é, a idéia de que a preservação de áreas valiosas do ponto de vista ambiental depende de que sejam mantidas intocadas, sem a presença do ser humano. Esta crítica não é nova, nem tampouco exclusividade minha. Muitos acadêmicos e ambientalistas que não vivem encerrados em gabinetes a compartilham. É muito conhecido o trabalho, nesta direção, do Prof. Antonio Carlos Diegues, da USP - um dos entrevistados do doc -, sobretudo em seu livro seminal, o "O Mito Moderno da Natureza Intocada". Quem paga o preço desta conservação ortodoxa e antiquada são inúmeras populações locais, cujos modos de vida em geral não afetam substancialmente os ecossistemas que se deseja conservar, ao verem suas atividades econômicas seriamente restringidas. Par e passo, estas comunidades, que poderiam ser os maiores aliados da conservação, tornam-se inimigas dela.

Como trabalho de um diretor então iniciante, o filme deve ser visto com parcimônia e devidamente contextualizado. Faz parte de um momento de aprendizagem e apuramento da linguagem e de minha maneira de trabalhar, trazendo por isso alguns problemas formais. Não obstante, tem vários méritos e é resultado de um amplo esforço de pesquisa e de gravações. Realizá-lo não teria sido possível sem a colaboração e parceria de inúmeros amigos e das próprias pessoas e instituições retratadas.

Ainda sobre este tema, sugiro a leitura do meu texto "O Dia em que a democracia derrotou o MST", no post acima, em que relato acontecimentos quando do lançamento do filme em Guaraqueçaba, no litoral do Paraná, uma das locações do Quando a Ecologia Chegou.

02/08/2010 - No Comments!

Cartas do Kuluene – Trailer

[vimeo http://www.vimeo.com/5336171]

No início do século XX, um anarquista francês perdido entre os índios do Araguaia. Em 1939, um antropólogo americano se suicida entre os índios Krahô. Em 2006, um cineasta segue os passos de seu pai no Xingu. Uma troca de cartas entre três tempos sobre o encontro com os índios brasileiros.

Direção e Roteiro: Pedro Novaes
Produção: Sertão Feelmes