All Posts in Textos meus

05/11/2012 - No Comments!

Paraísos Artificiais: exemplo para o cinema brasileiro

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=hEjgFsVqSG4&w=560&h=315]

Com "Paraísos Artificiais", a Zazen e seus sócios Marcos Prado e José Padilha dão mais uma mostra de sua versatilidade e competência cinematográfica e comercial.

Longa de estreia na ficção do diretor do premiado "Estamira", "Paraísos..." é um ótimo filme, com uma trama sólida, que tem tudo pra dialogar com um público amplo. Longe do que se tem sugerido, sobretudo em cima do título, escolhido evidentemente por critérios comerciais, não se trata de um filme superficial que surfa na onda das drogas associadas às festas de música eletrônica. Ao contrário, o tratamento dado ao tema é complexo e instigante, suscitando, como todo bom filme, um bom debate sobre o comportamento da juventude contemporânea, sobre o lugar das drogas em nosso imaginário e na sociedade e sobre a família.

"Paraísos..." evidentemente não discursa sobre tais questões. É a narrativa quem naturalmente suscita o debate para quem assiste. A trama gira simplesmente em torno do relacionamento de Nando (Luca Bianchi), Érica (Nathalia Dill) e Lara (Lívia de Bueno), em três momentos diferentes: oito anos antes, numa rave no litoral do Nordeste, quatro anos antes, em Amsterdam, e no presente, no Rio de Janeiro. As drogas obviamente são um dos componentes principais nos rumos que as vidas dos três tomarão.

Contrariando também certa tendência de nosso cinema, mas confirmando o talento dos sócios da Zazen como escritores, "Paraísos.." é um ótimo filme sobretudo porque se embasa num roteiro sólido, bem trabalhado e que, por isso, surpreende.

"Paraísos.." tem tudo pra desagradar à intelectualidade esquerdista, que vai achá-lo conservador, e também à classe média conservadora, que vai achá-lo liberal e chocante. Mais uma sólida evidência de um bom filme.

Por seu apelo junto ao público, estratégia comercial, mas sobretudo por ser uma ótima narrativa, "Paraísos Artificiais" é um exemplo para nos mirarmos.

08/11/2011 - No Comments!

O Sub Sam Mendes de Jodie Foster

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ttv-gvOzaPw&w=560&h=349]

Vou te contar uma história: um homem de meia idade tem depressão que se agrava há algum tempo; pai de dois filhos, casado com uma bem sucedida engenheira de montanhas russas, mas incapaz de superar sua doença, ele acaba chutado de casa pela mulher. Após uma patética tentativa frustrada de suicídio, esse homem estabelece uma estranha relação com um fantoche de castor, que ele passa a vestir todo o tempo, que o aconselha e acaba por tirá-lo da depressão. A família a princípio fica feliz com a súbita mudança do pai; o filho pequeno sobretudo desenvolve grande estima pelo castor; sua esposa entretanto, com o passar dos dias, passa a sentir aversão pelo fantoche, que está sempre junto com os dois, mesmo nos momentos mais íntimos.

É um argumento interessante, não? Se eu fosse um produtor executivo e um roteirista me apresentasse a ideia acima, eu diria "Isso soa interessante. Siga em frente. Desenvolva".
Mas entre um bom argumento e um filme na tela há um roteirista e um diretor.

Por ser diretor, acho que acabo sendo generoso na análise de filmes. Busco sempre entender os motivos que levaram os realizadores a essas ou aquelas escolhas e tendo a ser benevolente e perdoar equívocos por entender que a linguagem cinematográfica é traiçoeira e por crer que aos poucos vamos aprendendo com nosso erros.

Em função disso, quando vejo um filme como "Novo Despertar" (não vamos nem discutir esse título brasileiro para o original "The Beaver"), cujo argumento é o do primeiro parágrafo desse texto, minha sensação é de paralisia. Fico sem saber o que pensar e gaguejo porque não sei o que dizer.
Como é possível algo tão equivocado e cheio de decisões erradas, um filme tão ruim a partir de um ponto de partida que poderia ser interessante? Read more

04/13/2011 - No Comments!

Montagem versus Encenação

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=Nz92VVp6et0&w=480&h=390]

Texto publicado no Jornal Opção.

Desde Sergei Einsenstein, tornou-se lugar comum dizer que o coração do cinema está na montagem. Contar uma história ou transmitir um raciocínio organizados através de uma sequência descontínua de fragmentos temporais seria a essência da linguagem da sétima arte.

O grande montador Walter Murch (Apocalypse Now, O Paciente Inglês, etc.) reforçou essa idéia, propondo a hipótese, em seu seminal “Num Piscar de Olhos” (Jorge Zahar Editores), de que a montagem cinematográfica emula a maneira pela qual nosso cérebro capta a realidade – descartando fatias menos importantes dos estímulos que chegam e se concentrando nos elementos fundamentais. Para Murch, o piscar dos olhos seria o equivalente, na vida real, do corte no cinema.

O professor David Bordwell, entretanto, um dos mais respeitados teóricos contemporâneos do cinema, contesta tais idéias. Para ele, o que ocorre é que o cinema se tornou nas últimas décadas crescentemente uma arte da montagem, em detrimento das possibilidades igualmente importantes da encenação ou mise-en-scène.

Por encenação, entenda-se o conjunto dos elementos cênicos que, articulados, ajudam a contar uma história e transmitir emoções e idéias: luz, cenografia, figurinos, a posição e movimentação dos atores.

Montagem e encenação se complementam, mas, num certo nível, se opõem. Dar preferência à encenação significa, grande parte das vezes, privilegiar planos-sequência, isto é, aqueles sem cortes e/ou planos fixos, onde a profundidade de campo e a movimentação dos atores, auxiliadas por uma disposição engenhosa de elementos de cenografia, têm mais relevância para contar a história do que os cortes entre vários tipos de planos.

A maioria dos diretores de hoje - e mais ainda em Hollywood – abandonou quase por completo os recursos da mise-en-scène. Todos operam utilizando um estilo muito parecido – praticamente uma fórmula - essencialmente calcado numa montagem cada vez mais acelerada. A quantidade de cortes nos filmes ajuda a demonstrar essa afirmação. Segundo Bordwell, “do começo do cinema sonoro até a década de 1960, a maioria dos filmes de Hollywood continha entre 300 e 700 planos, com uma duração média dos planos variando entre oito e 11 segundos.” Essa duração média cai para dois a oito segundos na década de 1990, com muitos filmes chegando a terem mais de dois mil planos. Embora os filmes de ação evidentemente puxem esses números, com suas montagens frenéticas, comédias românticas não ficam muito atrás, ele aponta, com filmes como Shakespeare Apaixonado (1998), Noiva em Fuga (1999) e Jerry Maguire (1996) tendo uma duração média de planos entre quatro e seis segundos.

Em oposição a essa maneira de contar histórias com imagens, para quem gosta de cinema, é fundamental saber que há um vasto conjunto de cineastas que relegam a montagem a segundo plano em seu estilo de dispor da linguagem cinematográfica. Os japoneses Kenji Mizoguchi e Yazujiro Ozu, o americano Orson Welles, o grego Theo Angelopoulos e o taiwanês Hou Hsiao-Sien, entre outros, são todos mestres no uso da profundidade de campo e do plano-sequência.

Em seu único livro publicado em português, “Figuras Traçadas na Luz” (Editora Papirus), David Bordwell analisa as estratégias de mise-en-scène de alguns deles. Como exemplo lapidar da força e do potencial da encenação, ele cita uma cena de “Paisagem na Neblina”, de Angelopoulos, onde a protagonista Voula, uma menina de 12 anos, é estuprada por um caminhoneiro. Na paisagem desolada, cinzenta e chuvosa de uma estrada, o caminhão para no acostamento. O caminhoneiro desce puxando a menina e entra com ela na carroceria. A câmera fica do lado de fora - nossa visão, toldada pela lona que a encerra – e, por longos minutos sem cortes, assistimos ao caminhão sem ver o que acontece lá dentro, mas sabendo-o bem. A posição da câmera, com o caminhão dominando o quadro e a estrada ao fundo magnetizam nosso olhar e tornam todo o acontecimento ainda mais chocante por sua “sinistra inevitabilidade”.

Conhecer esses mestres da encenação abre todo um novo horizonte em relação ao potencial da linguagem cinematográfica.

03/25/2011 - No Comments!

Do Lado de Lá do Rio da Prata

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=J1n2npvv3uU&w=480&h=390]

Artigo Publicado originalmente no Jornal Opção.

Há sempre muita briga quando se compara o cinema argentino ao cinema brasileiro - gente argumentando por uma suposta superioridade do cinema ao sul do Rio da Prata, gente se batendo pela solidez de nossa produção, que em nada ficaria a dever à deles.

A despeito da polêmica, é evidente que a Argentina possui uma produção farta e diversa de altíssima qualidade no campo da ficção. Curiosamente, sua cinematografia documental ainda permanece em larga medida desconhecida no Brasil.

Eles por lá têm também suas próprias polêmicas, e o incensado Juan José Campanella, diretor do oscarizado “O Segredo dos Seus Olhos”, é um dos principais focos desses atritos; premiado e bem sucedido comercialmente, polemiza com muitos de seus pares ao defender a necessidade de um olhar mais comercial sobre o cinema, atacando a grande parcela da produção argentina que, como no Brasil, se financia com recursos públicos e gera pouco interesse nas platéias.

Passando ao largo da briga, Campanella é roteirista e diretor de melodramas sensíveis e inteligentes – característica que, a meu ver, une muitos dos melhores diretores do cinema recente argentino.

Além de Campanella, nomes como Carlos Sorín, Pablo Trapero, Daniel Burman, Lucía Puenzo, Marcelo Piñeyro, Adolfo Aristarain e Eduardo Mignogna, entre outros, guardadas suas peculiaridades e estilos em alguns casos radicalmente diferentes, têm em comum filmes de estrutura melodramática, que fogem porém do moralismo, do maniqueísmo e das emoções fáceis. Todos eles em algum momento dirigiram dramas humanos quase sempre singelos baseados em personagens construídos com complexidade, não raro retratando pessoas comuns e fatos cotidianos; filmes quase sempre calcados em grandes atuações que envolvem temas recorrentes como a família, a velhice e o desemprego, e outros delicados, como hermafroditismo ou a máfia de seguros no sistema de saúde.
Entre os melodramas de Campanella se destacam sobretudo o premiado “O Segredo dos Seus Olhos” e o também conhecido “O Filho da Noiva”. Apesar de considerá-los grandes filmes, é Carlos Sorin, entretanto, meu cineasta argentino favorito. Quase todos os seus filmes têm como cenário as paisagens monumentais da Patagônia. Nos quadros amplos e nos planos longos e silenciosos, aparecem anti-heróis simples e ingênuos - grande parte das vezes representados por não-atores - como o Juan Villegas de “O Cachorro” (veja o trailer acima) ou a Maria Flores e o Don Justo de “Histórias Mínimas”.

Pablo Trapero é um dos cineastas jovens argentinos mais conhecidos e premiados. “Abutres”, seu trabalho mais recente, foi parte da seleção oficial de Cannes em 2010. É um excelente thriller com um pano de fundo de crítica social, mas seu primeiro filme – “Mundo Grua” - segue sendo sua melhor realização. Rodado em preto e branco, o filme conta a história de Rulo, um desempregado que tenta conseguir trabalho como operador de gruas numa obra.

Para não ficarmos só no melodrama, cabe encerrar com a também conhecida Lucrecia Martel, cujo longa de estréia “O Pântano” é um retrato perturbador de uma família provinciana no nordeste da Argentina. Distantes da estrutura de um cinema clássico narrativo, a seus filmes não interessa a causalidade dos fatos, mas a própria tessitura da vida, onde certas ações não levam a nada, onde o acaso tem papel predominante e onde as coisas não fazem mesmo muito sentido. Seus outros dois longas: “A Menina Santa” e a “Mulher sem Cabeça” trilham caminhos semelhantes e são também muito perturbadores.

02/23/2010 - No Comments!

Entre o real e o impossível: o ofício de dirigir

Não tenho dúvida que um dos maiores desafios no caminho de um diretor de cinema é aprender a abrir mão. Ponte entre a imaginação do roteiro e a realidade do filme, ele tem a cada dia que exercitar o jogo de cintura necessário para fazer o máximo sem querer o impossível que frustraria qualquer possibilidade de filme. Refém do real, sem lutar contra ele, o diretor é medíocre, e seu filme perde qualquer sentido. Refém do impossível, seu filme não existe, pois nunca é bom o suficiente.

Assim, é preciso saber abrir mão da cena mais imaginada, mais cobiçada, mais preparada e mais sonhada, e mesmo assim saber que o filme ainda segue bom ou até melhor. Abrir mão dela conforme imaginada para que ela tome a forma possível, ou mesmo abrir mão dela depois, na montagem, porque simplesmente não se encaixa mais no filme.

Mas é preciso saber que se fez todo o possível para ter a cena imaginada, e então, mas só então, abrir mão. É difícil, mas não há como ser um bom diretor sem essa capacidade.

02/10/2010 - No Comments!

O Dia em que a democracia derrotou o MST

O texto que se segue foi originalmente publicado no extinto blog "O Garganta de Fogo". Segue absolutamente atual, entretanto, em minha opinião. Depois de ler, se quiser saber mais sobre o filme que o motivou, o Quando a Ecologia Chegou, siga para o post abaixo.

Ninguém viveu propriamente até testemunhar de corpo presente um embate político em que o MST está de um dos lados. Não há nada mais instrutivo sobre a vida, a política, a esquerda e o ser humano.

Feliz ou infelizmente tive tal oportunidade na última quinta-feira. Deviam colocar saquinhos de vômito no verso do espaldar das cadeiras da frente como nos aviões e avisar os incautos sobre a possibilidade de náuseas e mau cheiro.

Explico: fui lançar meu documentário, o “Quando a Ecologia Chegou”, no litoral do Paraná, na Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, um dos locais onde foi filmado. O propósito era exibi-lo ao Conselho Gestor da APA (Conapa), órgão colegiado com a participação de inúmeras instituições e das próprias comunidades locais, responsável por assessorar o Ibama na gestão desta área protegida.

O Conapa é uma interessante experiência de verdadeira gestão participativa, distante das cortinas de fumaça e da retórica que o uso da palavra “participação” em geral significa. Trata-se de um trabalho sério, hoje referência nacional, que tem mudado de fato o comportamento de indivíduos, o relacionamento entre instituições e ajudado, pouco a pouco, a superar na APA o conflito entre conservação e desenvolvimento. É um trabalho que conheço muito bem: responsável e de espírito profundamente democrático.
Ocorre que, para azar ou sorte, há quase três anos, um grupo do MST invadiu uma propriedade localizada no interior da APA. Acampados, resistiram a qualquer tentativa de retirá-los dali, apoiados no suporte tácito que têm do Governo Requião e na inação do judiciário que não procede à emissão de uma reintegração de posse.

Derrotado, o proprietário se dispôs a vender a terra ao Incra, uma vez que ela não se enquadrava nos critérios de improdutividade necessários para uma desapropriação para fins de reforma agrária. O Incra então protocolou um pedido de licenciamento ambiental no Instituto Ambiental do Paraná para a implantação do referido assentamento que, ironia das ironias, batizou-se “José Lutzemberger”, em homegagem ao falecido ambientalista gaúcho, ex-secretário de Meio Ambiente da Presidência da República.

Ainda que o licenciamento seja de responsabilidade do órgão estadual de meio ambiente, como se trata de propriedade situada no interior de uma área de proteção ambiental federal, necessário se faz ouvir o Ibama, conforme dita a legislação. Uma vez que a referida unidade de conservação possui um conselho gestor em funcionamento, é também de lei que o colegiado seja consultado pelo próprio Ibama antes de emitir seu parecer sobre a matéria.

Previamente, o assunto já vinha sendo objeto de exaustivos debates no âmbito do Conselho que, colocada a questão, acatou inclusive o pedido do MST para ocupar um assento no colegiado.

Formalizada a necessidade de uma manifestação oficial do Conapa, nomeou-se uma comissão constituída por sete membros, da qual o MST uma vez mais fez parte, encarregada de analisar em profundidade o tema, consultando inclusive outras instituições, e elaborar um relatório que pudesse embasar uma decisão consistente.

Este relatório foi debatido e votado na última quinta-feira, durante reunião extraordinária do Conapa, realizada no Salão Paroquial do município de Antonina.

Como é de seu costume, o MST compareceu em massa. Atrás da meia lua de cadeiras em que se sentavam os 26 membros presentes do Conselho, aglomeravam-se quase uma centena de acampados, dirigentes, técnicos e simpatizantes do Movimento. Para minha surpresa, não portavam suas foices de costume, o que foi um alento.

O que mais impressiona de saída é a apurada capacidade da esquerda de corte comunista de encher a boca para usar a palavra “democracia” como argumento de força para justificar as práticas menos democráticas e mais autoritárias possíveis, precisamente na tentativa de deslegitimar um processo transparente e profundamente democrático, como têm sido as discussões no Conapa. Vem à mente a conhecida máxima de Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.”
A estratégia todo o tempo é a da pressão e da coação, pois evidentemente o diálogo e a reacionalidade trazem o risco de que se conclua que uma área de proteção ambiental talvez não seja o melhor lugar para um assentamento agrícola.
Desta forma, a aplausos ensurdecedores a cada orador do movimento que se sentava, se somava o apelo à emoção, mais uma vez na tentativa de fazer a calar a razão:

“No final da reunião, eu voltou pro conforto da minha casa pra dormir no meu colchão macio”, se inflamava o chefe de gabinente do Instituto de Terras e Cartografia do Paraná, aliado do MST, e continuava: “enquanto esse pessoal”, apontava os acampados do Movimento, “volta pro barraco de lona no frio e nessa chuva que está caindo. Pensem nisso, senhores conselheiros, no que os senhores estarão fazendo à vida destas pessoas humildes!” e blá, blá, blá, blá. Senta-se este e levanta-se um jovem engenheiro florestal, assessor técnico do movimento: “Se a lei não veda a priori a implantação de um assentamento rural na APA, o que sobra são questões políticas, é o preconceito de classe”.

Esquecia-se ele, em seu discurso nervoso, que o Conapa é composto por um terço de representantes das próprias comunidades residentes na APA democraticamente eleitos, tão pobres ou mais que os acampados. Preconceito de classe?

Este teatro do surreal colocou precisamente estes representantes comunitários na antes inimaginável situação de se verem na pele de opressores das próprias comunidades, dos pobres e dos humildes, um discurso que alguns deles frequentemente usaram no passado para se referir aos órgãos ambientais, aos ambientalistas e às políticas de conservação da natureza. O mundo, de maneira irônica, subitamente ficou de cabeça para baixo.

O representante do Incra, instituição igualmente aparelhada pelo Movimento, como se sabe, de forma grosseira e truculenta,se recusava a encerrar o uso da palavra que lhe fora concedida, desrespeitando todos os limites de tempo estabelecidos e atacando o Conselho de forma deselegante e verdadeiramente jumêntica porque apenas expunha o feitio dos que comandam o Movimento, ao risco de indispor o próprio Conselho com relação a seu pleito.

Mas a verdade é que o MST pouco se importa com isso porque seu curto e atávico raciocínio é tautológico. Consiste sempre em identificar um inimigo e tentar criar um embate truculento e tosco, ao mesmo tempo em que se faz uma forte cortina de fumaça soltando palavras de ordem que incluem expressões como “democracia popular”, “justiça social” e “excluídos”. É um trabalho duplo e paralelo: de um lado, o embate regido pela lógica mais autoritária da aniquilação do diferente, de outro, um discurso que desvia a atenção deste cerne truculento da ação para uma máscara de justiça e defesa do povo e dos pobres.

Desta forma, quanto mais o objeto identificado como inimigo reage e se opõe a mim, mais reafirmo minhas certezas sobre mim mesmo e sobre minha tosca visão de mundo. E assim seguem, encaixando o mundo na estreita forma de sua ideologia, ignorando miopicamente que as aparas que sobram do lado de fora da forma têm muito mais volume do que o que forçam para dentro.
Ocorre, entretanto, que o Conselho não mordeu a isca e o MST ficou nu para todos verem. Enquanto os líderes do Movimento sussurravam ameaças nos ouvidos dos conselheiros sentados à sua frente, o Conselho, fortalecido em quatro anos de verdadeira democracia participativa, discutia fatos, opiniões e elaborava sua posição.

Como o Governo Requião tem uma aliança tácita com o MST, os representantes de órgãos estaduais eram os mais fustigados: “Veja bem o que vai fazer, traidor, vamos levar seu nome pros seus chefes, você vai perder seu emprego.” E outros atos de corte ainda mais rasteiro que, por me haverem sido contados em off pelos ameaçados, infelizmente não posso relatar. Isso tudo sem contar as cartas levianas com denúncias infundadas e vazias contra servidores do Ibama que lutavam por um processo justo, transparente e democrático de avaliação da questão e que defendiam o trabalho do Conselho contra os ataques do próprio Movimento.
Nua, a arrogância da esquerda autoritária crescia em progressão geométrica e a tautologia da reafirmação de sua verdade continuava monótona e cada vez mais canhestra.

E o Conselho, que quase invariavelmente decide as questões que lhe são trazidas por consenso, tamanha é sua maturidade, não se furtou a votar uma posição sobre o licenciamento do assentamento: empate. Doze conselheiros favoráveis, doze contrários. O poder de minerva do presidente – pasmem, um pequeno agricultor representante comunitário – teve de ser invocado e sua posição foi contrária ao assentamento.

E assim, num dia nublado e ventoso à beira da bela Baía de Paranaguá, a democracia derrotou a truculência do MST. Não porque o conselho tenha se manifestado contrariamente ao licenciamento do assentamento, mas porque deu à esquerda autoritária uma lição de respeito e de diálogo, noções absolutamente alheias à formação cubana do Movimento.

O MST passou e o Conapa não se abalou. O salão se esvaziou e, sob a fina garoa litorânea, a pauta prosseguiu no mesmo espírito fraterno e de colaboração que caracteriza o espírito do colegiado. A despeito de posições radicalmente diferentes – uns contra outros a favor do assentamento, por exemplo – , os conselheiros são verdadeiros democratas e saem da reunião para beber cerveja juntos.

Enquanto isso, do lado de fora, uma liderança do movimento seguia a tautológica cantilena afirmando a outro: “Viu como repartiu direitinho? As comunidades votaram conosco e as ONGs contra a gente.”

Não sei se ele foi a uma reunião diferente da que assisti, mas na que presenciei ONGs votaram algumas contra, outras a favor do assentamento, comunitários votaram diversos a favor, alguns contra seu licenciamento.

A realidade é bem mais matizada e complexa, mas o que importa é prosseguir a cantilena a despeito da enorme quantidade de aparas do lado de fora da forma ideológica.

Saí do salão metade triste e metade feliz.

Metade triste porque não queria sentir tanta raiva e asco daquela gente. É justamente isso o que eles desejam. Triste também por constatar mais uma vez como se realiza a política na maioria dos chamados “movimentos populares” – de maneira brutal e autoritária – , um punhado de lideranças raivosas e arrogantes manipulando e doutrinando um bocado de gente fodida que aprende direitinho e muito rapidamente a cantilena. Triste porque isso me dá nojo e abala minha já precária esperança no mundo.
Mas feliz porque o Poder Público em alguns lugares como ali faz trabalho sério, apesar de todos os seus problemas. E feliz principalmente porque o Conapa é um pequeno exemplo de que a democracia funciona e resiste a golpes duros do mais sujo e baixo autoritarismo.