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03/05/2013 - No Comments!

Sobre Encontrar o Tom

O-Som-ao-Redor

Caetano Veloso gostou muito de "O Som ao Redor". Eu também. Tinha certo medo, diante da unanimidade do filme junto à crítica e aos intelectuais, mas Kleber Mendonça Filho realmente maneja como poucos diretores brasileiros a linguagem do cinema.

É incrível como consegue plotar um panorama amplo de uma vizinhança, num roteiro de pouca trama, apesar da virada final, e mesmo assim criar uma tensão permanente que não nos deixa desgrudar do filme. Não à toa, alguém chamou o filme de "suspense sem trama". Incrível como consegue plasmar em cada plano de cada cena o tema do filme, que é a violência.

Mencionei Caetano, entretanto, e "O Som ao Redor" porque em artigo recente n'O Globo, ele detectou algo no filme que me parece de suma importância para quem faz cinema. Disse ele:

"‘O som ao redor’, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, é um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo (...) fiquei estarrecido. Raramente um diretor encontra com tanta precisãtom do filme que deve e quer fazer."

Esse é o grande desafio que torna tão ingrata, e recompensadora, a tarefa de fazer filmes. É muito difícil encontrar o tom certo. Afinal, para saber se o tom de algo está adequado, é preciso olhar esse objeto pelo lado de fora; e fazendo um filme, a gente está tudo, menos de fora. Tom é questão de ajuste fino, e é esse ajuste fino que, por muito pouco, torna excelentes roteiros verdadeiros desastres na tela.

Minha intuição e pouco conhecimento me dizem que boa parte da resposta ao problema reside no roteiro, em trabalhá-lo e retrabalhá-lo, fazê-lo e refazê-lo sem pena e sem medo. Evidentemente, isso não basta, mas o aprofundamento obsessivo na escrita - e em seguida na definição do conceito de direção - é o que nos ajuda a conhecer o universo do filme e a incorporá-lo fisicamente a quem somos - de forma, sobretudo, a nos livrarmos dos clichês.

Pois uma vez no set, não há racionalidade que dê conta do processo. No set, o assistente de direção tem que ser a razão e o diretor, a intuição. O diretor tem que estar livre para seguir seus instintos, pois a razão, no que diz respeito à estética do filme tende a ser complacente. Ela se deixa hipnotizar pela imagem e pela própria complexidade do processo, achando que tudo está bonito.

A razão tende a confundir a beleza do processo com a beleza do produto. A razão se fascina vaidosamente por esse processo: acha bonito porque é bonito de fato ver surgir um cenário, o trabalho da arte dar resultado, os objetos, as texturas, na criação de um mundo totalmente ficcional; a razão acha bonita a luz ao vê-la no monitor, os contrastes, os contra-luzes, mas acha bonito porque na verdade está, em larga medida, olhando para si mesma, para o produto de seu trabalho e se dizendo: "que bonito que a gente seja capaz de produzir esse mundo ficcional" - e é realmente lindo, mas não suficiente, pois isso não tem nada a ver com o resultado na tela.

Para que um filme resulte bonito e emocionante - no tom certo -, é a intuição quem deve trabalhar, a intuição construída na lapidação da obra, a intuição que se forja e enraiza no próprio centro de gravidade do filme, na fonte última que o inspira e o move - e com a qual, incrivelmente, ao longo do processo, frequentemente perdemos contato porque o processo se torna onipresente demais, demandante demais.

Por isso, no set, o diretor tem que esquecer tudo, para tentar se lembrar dessa essência, dessa fagulha, desse núcleo magmático que é o centro de pressão do filme. Só assim, ele pode urdir uma erupção vulcânica.

03/12/2012 - No Comments!

O Esquizofrênico Cinema de Goiás

* Texto publicado originalmente na Revista do Cinema Brasileiro

Goiás e, mais especificamente, Goiânia são lugares intrigantes. Simbolicamente situados no centro do país, o estado e sua capital são, de certa forma, uma espécie de limbo, ou zona de transição, entre nossas tradições mais arcaicas e o que temos de moderno.

Goiânia ostenta os títulos paradoxais de capital da música sertaneja e do rock independente. Embora o grande público o desconheça, os verdadeiros fãs de rock sabem que é de Goiânia um dos principais selos de música independente do país, a Monstro Discos, e que é daqui um dos festivais de rock mais antigos e cultuados do Brasil, o Goiânia Noise Festival, que neste ano terá sua 18a edição. Gustavo Vásquez, produtor musical daqui, é o único a ter obtido, por dois anos seguidos, o primeiro lugar entre os melhores lançamentos do ano da Rolling Stone brasileira, com as bandas Macaco Bong e Black Drawing Chalks.
Para os que fazem cinema em Goiânia, 2011 foi um ano marcante. Dois filmes radicalmente diferentes conquistaram lugares em festivais de primeira linha e foram comentados como evidências de uma cena de produção cada vez mais fértil. O curta "Julie, Agosto, Setembro", de Jarleo Barbosa, um dos sócios da jovem Panaceia Filmes, aportou, entre outros grandes festivais, em Gramado, no Cine Ceará, na Mostra de Tiradentes e no Goiânia Mostra Curtas, onde ganhou prêmios de direção e do Júri Popular. O longa "Cartas do Kuluene", dirigido por esse que vos escreve, teve sua estreia na última Mostra Internacional de São Paulo.

Não menos importantes para a cena goiana e também despontando no cenário nacional, são nomes como os de Alyne Fratari, agora rodando seu sétimo curta em sete anos, Simone Caetano, cujo "Verde Maduro" também tem circulado com elogios nos festivais, o da documentarista Cláudia Nunes, aplaudida, entre outros, por "Rapsódia do Absurdo" e pelo impactante "Número Zero", Lourival Belém, com seu "Recordações de um Presídio de Meninos", e Luiz Eduardo Jorge, com "Passageiros de Segunda Classe". No campos da animação, não podemos deixar de mencionar as várias produções da Mandra Filmes, como "Peixe Frito", e o elogiado "O Ogro", de Márcio Jr. (por sinal, um dos sócios da Monstro Discos) e Márcia Deretti.

Num momento especial para o cinema feito aqui, cabe homenagear os que nos antecederam. Sendo assim, embora seja suspeito para falar, preciso dizer que, na minha opinião, Goiás tem uma das pérolas esquecidas do cinema brasileiro, o longa "O Diabo Mora no Sangue", produzido e estrelado pelo mineiro aqui radicado João Bennio, e dirigido por um jovem Cecil Thiré. Filme de estreia de Ana Maria Magalhães no cinema, ele conta a história dos conflitos vividos por um ribeirinho do Araguaia com a chegada de um liberal grupo de turistas às praias do rio. Um retrato íntimo do conflito entre modernidade e tradição, "O Diabo" não deixa de tocar em nenhum dos outros temais fundamentais: o desejo, o amor, o incesto e a morte. Eis um filme que precisa ser resgatado e alçado ao lugar que merece na galeria do cinema nacional.

A produção em Goiás evoluiu radicalmente ao longo da década de 2000, quando amadureceram mecanismos públicos de fomento, como a Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia e a Lei Goyazes, em nível estadual, além de diferentes editais e prêmios, bem como um conjunto de festivais - o FICA, o Goiânia Mostra Curtas, o Festcine Goiânia, O Perro Loco e a Mostra Independente do Audiovisual Universitário -, que criaram janelas de exibição e ajudaram a fomentar o surgimento de um debate audiovisual e de intercâmbio entre realizadores locais e de fora. Cabe ressaltar que evidentemente esses mecanismos e mostras não criaram o audiovisual feito aqui. Ele sempre existiu antes e à margem disso, mas inegavelmente ganhou força na esteira desses eventos e leis, bem como da rápida democratização do digital ao longo da última década.

Junto com esses fatores, não se deve deixar de mencionar o surgimento e consolidação de mecanismos de capacitação, sobretudo a graduação em Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás que, aos trancos e barrancos e a despeito de todas as suas carências, tem indubitavelmente formado jovens realizadores que emergem da faculdade com outro olhar, muito mais preparado e apurado.

Se produzir cinema no Cerrado e fora do eixo Rio-São Paulo tem seus reveses, especialmente na dificuldade de acesso a financiamentos mais expressivos e na carência de mão-de-obra técnica em certas áreas, de outro, esses mesmo obstáculos, ao longo dos anos, têm ensinado os realizadores a produzirem com cada vez mais qualidade, a despeito da carência de recursos. Se a maior proximidade entre as pessoas, de um lado, como em toda parte, exacerba as vaidades e os egos, de outro, facilita a troca e a colaboração.

E, mais que tudo, nossos paradoxos existenciais - de metrópole periférica, de província conectada, de embate entre modernidade e tradição, de cidade do rock e do sertanejo - propiciam um raro caldo cultural de enorme fertilidade e potencial criativo. Parece-me que é essa esquizofrenia que, devagar, começa a respingar sobre as telas de nossos filmes. Quanto mais formos capazes de dar expressão a ela, creio que mais força terá nosso cinema.

Sob evidente suspeita, acredito muito em Goiás como um pólo audiovisual que chamará a atenção do país nos próximos anos, assim como Porto Alegre e Recife, entre outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo, já o fizeram no passado.

08/11/2011 - No Comments!

O Sub Sam Mendes de Jodie Foster

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ttv-gvOzaPw&w=560&h=349]

Vou te contar uma história: um homem de meia idade tem depressão que se agrava há algum tempo; pai de dois filhos, casado com uma bem sucedida engenheira de montanhas russas, mas incapaz de superar sua doença, ele acaba chutado de casa pela mulher. Após uma patética tentativa frustrada de suicídio, esse homem estabelece uma estranha relação com um fantoche de castor, que ele passa a vestir todo o tempo, que o aconselha e acaba por tirá-lo da depressão. A família a princípio fica feliz com a súbita mudança do pai; o filho pequeno sobretudo desenvolve grande estima pelo castor; sua esposa entretanto, com o passar dos dias, passa a sentir aversão pelo fantoche, que está sempre junto com os dois, mesmo nos momentos mais íntimos.

É um argumento interessante, não? Se eu fosse um produtor executivo e um roteirista me apresentasse a ideia acima, eu diria "Isso soa interessante. Siga em frente. Desenvolva".
Mas entre um bom argumento e um filme na tela há um roteirista e um diretor.

Por ser diretor, acho que acabo sendo generoso na análise de filmes. Busco sempre entender os motivos que levaram os realizadores a essas ou aquelas escolhas e tendo a ser benevolente e perdoar equívocos por entender que a linguagem cinematográfica é traiçoeira e por crer que aos poucos vamos aprendendo com nosso erros.

Em função disso, quando vejo um filme como "Novo Despertar" (não vamos nem discutir esse título brasileiro para o original "The Beaver"), cujo argumento é o do primeiro parágrafo desse texto, minha sensação é de paralisia. Fico sem saber o que pensar e gaguejo porque não sei o que dizer.
Como é possível algo tão equivocado e cheio de decisões erradas, um filme tão ruim a partir de um ponto de partida que poderia ser interessante? Read more

02/10/2010 - No Comments!

O Dia em que a democracia derrotou o MST

O texto que se segue foi originalmente publicado no extinto blog "O Garganta de Fogo". Segue absolutamente atual, entretanto, em minha opinião. Depois de ler, se quiser saber mais sobre o filme que o motivou, o Quando a Ecologia Chegou, siga para o post abaixo.

Ninguém viveu propriamente até testemunhar de corpo presente um embate político em que o MST está de um dos lados. Não há nada mais instrutivo sobre a vida, a política, a esquerda e o ser humano.

Feliz ou infelizmente tive tal oportunidade na última quinta-feira. Deviam colocar saquinhos de vômito no verso do espaldar das cadeiras da frente como nos aviões e avisar os incautos sobre a possibilidade de náuseas e mau cheiro.

Explico: fui lançar meu documentário, o “Quando a Ecologia Chegou”, no litoral do Paraná, na Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, um dos locais onde foi filmado. O propósito era exibi-lo ao Conselho Gestor da APA (Conapa), órgão colegiado com a participação de inúmeras instituições e das próprias comunidades locais, responsável por assessorar o Ibama na gestão desta área protegida.

O Conapa é uma interessante experiência de verdadeira gestão participativa, distante das cortinas de fumaça e da retórica que o uso da palavra “participação” em geral significa. Trata-se de um trabalho sério, hoje referência nacional, que tem mudado de fato o comportamento de indivíduos, o relacionamento entre instituições e ajudado, pouco a pouco, a superar na APA o conflito entre conservação e desenvolvimento. É um trabalho que conheço muito bem: responsável e de espírito profundamente democrático.
Ocorre que, para azar ou sorte, há quase três anos, um grupo do MST invadiu uma propriedade localizada no interior da APA. Acampados, resistiram a qualquer tentativa de retirá-los dali, apoiados no suporte tácito que têm do Governo Requião e na inação do judiciário que não procede à emissão de uma reintegração de posse.

Derrotado, o proprietário se dispôs a vender a terra ao Incra, uma vez que ela não se enquadrava nos critérios de improdutividade necessários para uma desapropriação para fins de reforma agrária. O Incra então protocolou um pedido de licenciamento ambiental no Instituto Ambiental do Paraná para a implantação do referido assentamento que, ironia das ironias, batizou-se “José Lutzemberger”, em homegagem ao falecido ambientalista gaúcho, ex-secretário de Meio Ambiente da Presidência da República.

Ainda que o licenciamento seja de responsabilidade do órgão estadual de meio ambiente, como se trata de propriedade situada no interior de uma área de proteção ambiental federal, necessário se faz ouvir o Ibama, conforme dita a legislação. Uma vez que a referida unidade de conservação possui um conselho gestor em funcionamento, é também de lei que o colegiado seja consultado pelo próprio Ibama antes de emitir seu parecer sobre a matéria.

Previamente, o assunto já vinha sendo objeto de exaustivos debates no âmbito do Conselho que, colocada a questão, acatou inclusive o pedido do MST para ocupar um assento no colegiado.

Formalizada a necessidade de uma manifestação oficial do Conapa, nomeou-se uma comissão constituída por sete membros, da qual o MST uma vez mais fez parte, encarregada de analisar em profundidade o tema, consultando inclusive outras instituições, e elaborar um relatório que pudesse embasar uma decisão consistente.

Este relatório foi debatido e votado na última quinta-feira, durante reunião extraordinária do Conapa, realizada no Salão Paroquial do município de Antonina.

Como é de seu costume, o MST compareceu em massa. Atrás da meia lua de cadeiras em que se sentavam os 26 membros presentes do Conselho, aglomeravam-se quase uma centena de acampados, dirigentes, técnicos e simpatizantes do Movimento. Para minha surpresa, não portavam suas foices de costume, o que foi um alento.

O que mais impressiona de saída é a apurada capacidade da esquerda de corte comunista de encher a boca para usar a palavra “democracia” como argumento de força para justificar as práticas menos democráticas e mais autoritárias possíveis, precisamente na tentativa de deslegitimar um processo transparente e profundamente democrático, como têm sido as discussões no Conapa. Vem à mente a conhecida máxima de Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.”
A estratégia todo o tempo é a da pressão e da coação, pois evidentemente o diálogo e a reacionalidade trazem o risco de que se conclua que uma área de proteção ambiental talvez não seja o melhor lugar para um assentamento agrícola.
Desta forma, a aplausos ensurdecedores a cada orador do movimento que se sentava, se somava o apelo à emoção, mais uma vez na tentativa de fazer a calar a razão:

“No final da reunião, eu voltou pro conforto da minha casa pra dormir no meu colchão macio”, se inflamava o chefe de gabinente do Instituto de Terras e Cartografia do Paraná, aliado do MST, e continuava: “enquanto esse pessoal”, apontava os acampados do Movimento, “volta pro barraco de lona no frio e nessa chuva que está caindo. Pensem nisso, senhores conselheiros, no que os senhores estarão fazendo à vida destas pessoas humildes!” e blá, blá, blá, blá. Senta-se este e levanta-se um jovem engenheiro florestal, assessor técnico do movimento: “Se a lei não veda a priori a implantação de um assentamento rural na APA, o que sobra são questões políticas, é o preconceito de classe”.

Esquecia-se ele, em seu discurso nervoso, que o Conapa é composto por um terço de representantes das próprias comunidades residentes na APA democraticamente eleitos, tão pobres ou mais que os acampados. Preconceito de classe?

Este teatro do surreal colocou precisamente estes representantes comunitários na antes inimaginável situação de se verem na pele de opressores das próprias comunidades, dos pobres e dos humildes, um discurso que alguns deles frequentemente usaram no passado para se referir aos órgãos ambientais, aos ambientalistas e às políticas de conservação da natureza. O mundo, de maneira irônica, subitamente ficou de cabeça para baixo.

O representante do Incra, instituição igualmente aparelhada pelo Movimento, como se sabe, de forma grosseira e truculenta,se recusava a encerrar o uso da palavra que lhe fora concedida, desrespeitando todos os limites de tempo estabelecidos e atacando o Conselho de forma deselegante e verdadeiramente jumêntica porque apenas expunha o feitio dos que comandam o Movimento, ao risco de indispor o próprio Conselho com relação a seu pleito.

Mas a verdade é que o MST pouco se importa com isso porque seu curto e atávico raciocínio é tautológico. Consiste sempre em identificar um inimigo e tentar criar um embate truculento e tosco, ao mesmo tempo em que se faz uma forte cortina de fumaça soltando palavras de ordem que incluem expressões como “democracia popular”, “justiça social” e “excluídos”. É um trabalho duplo e paralelo: de um lado, o embate regido pela lógica mais autoritária da aniquilação do diferente, de outro, um discurso que desvia a atenção deste cerne truculento da ação para uma máscara de justiça e defesa do povo e dos pobres.

Desta forma, quanto mais o objeto identificado como inimigo reage e se opõe a mim, mais reafirmo minhas certezas sobre mim mesmo e sobre minha tosca visão de mundo. E assim seguem, encaixando o mundo na estreita forma de sua ideologia, ignorando miopicamente que as aparas que sobram do lado de fora da forma têm muito mais volume do que o que forçam para dentro.
Ocorre, entretanto, que o Conselho não mordeu a isca e o MST ficou nu para todos verem. Enquanto os líderes do Movimento sussurravam ameaças nos ouvidos dos conselheiros sentados à sua frente, o Conselho, fortalecido em quatro anos de verdadeira democracia participativa, discutia fatos, opiniões e elaborava sua posição.

Como o Governo Requião tem uma aliança tácita com o MST, os representantes de órgãos estaduais eram os mais fustigados: “Veja bem o que vai fazer, traidor, vamos levar seu nome pros seus chefes, você vai perder seu emprego.” E outros atos de corte ainda mais rasteiro que, por me haverem sido contados em off pelos ameaçados, infelizmente não posso relatar. Isso tudo sem contar as cartas levianas com denúncias infundadas e vazias contra servidores do Ibama que lutavam por um processo justo, transparente e democrático de avaliação da questão e que defendiam o trabalho do Conselho contra os ataques do próprio Movimento.
Nua, a arrogância da esquerda autoritária crescia em progressão geométrica e a tautologia da reafirmação de sua verdade continuava monótona e cada vez mais canhestra.

E o Conselho, que quase invariavelmente decide as questões que lhe são trazidas por consenso, tamanha é sua maturidade, não se furtou a votar uma posição sobre o licenciamento do assentamento: empate. Doze conselheiros favoráveis, doze contrários. O poder de minerva do presidente – pasmem, um pequeno agricultor representante comunitário – teve de ser invocado e sua posição foi contrária ao assentamento.

E assim, num dia nublado e ventoso à beira da bela Baía de Paranaguá, a democracia derrotou a truculência do MST. Não porque o conselho tenha se manifestado contrariamente ao licenciamento do assentamento, mas porque deu à esquerda autoritária uma lição de respeito e de diálogo, noções absolutamente alheias à formação cubana do Movimento.

O MST passou e o Conapa não se abalou. O salão se esvaziou e, sob a fina garoa litorânea, a pauta prosseguiu no mesmo espírito fraterno e de colaboração que caracteriza o espírito do colegiado. A despeito de posições radicalmente diferentes – uns contra outros a favor do assentamento, por exemplo – , os conselheiros são verdadeiros democratas e saem da reunião para beber cerveja juntos.

Enquanto isso, do lado de fora, uma liderança do movimento seguia a tautológica cantilena afirmando a outro: “Viu como repartiu direitinho? As comunidades votaram conosco e as ONGs contra a gente.”

Não sei se ele foi a uma reunião diferente da que assisti, mas na que presenciei ONGs votaram algumas contra, outras a favor do assentamento, comunitários votaram diversos a favor, alguns contra seu licenciamento.

A realidade é bem mais matizada e complexa, mas o que importa é prosseguir a cantilena a despeito da enorme quantidade de aparas do lado de fora da forma ideológica.

Saí do salão metade triste e metade feliz.

Metade triste porque não queria sentir tanta raiva e asco daquela gente. É justamente isso o que eles desejam. Triste também por constatar mais uma vez como se realiza a política na maioria dos chamados “movimentos populares” – de maneira brutal e autoritária – , um punhado de lideranças raivosas e arrogantes manipulando e doutrinando um bocado de gente fodida que aprende direitinho e muito rapidamente a cantilena. Triste porque isso me dá nojo e abala minha já precária esperança no mundo.
Mas feliz porque o Poder Público em alguns lugares como ali faz trabalho sério, apesar de todos os seus problemas. E feliz principalmente porque o Conapa é um pequeno exemplo de que a democracia funciona e resiste a golpes duros do mais sujo e baixo autoritarismo.