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10/23/2012 - No Comments!

No cinema, como no futebol?

Como quase tudo o que diz respeito à Argentina, o cinema de nossos vizinhos também serve como espelho para o nosso. São frequentes as comparações e não rara a opinião de que os argentinos produzem um cinema de maior qualidade que o nosso, ou ao menos um cinema que se comunica melhor com um público mais amplo.  Se o Brasil, de seu lado, teve um cinema novo que ganhou o respeito do mundo, a Argentina já levou dois Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (com "A História Oficial" e "O Segredo dos Seus Olhos").

Será fato mesmo essa superioridade?

É evidente que apenas uma diminuta porção da produção anual de nossos vizinhos nos chega, mas, separando o joio do trigo, eles parecem, de fato, capazes de produzir com maior competência ao menos um cinema ficcional de estrutura clássica.

Cutucando a onça com vara curta, sugiro que nossa dificuldade nesse sentido esteja relacionada a três fatores.

Em primeiro lugar, acho que temos dificuldade de romper, em certo sentido, com o cinema novo. Diferentemente da Argentina, tivemos um cinema novo marcante que, a partir de uma proposta estética diferenciada e de ruptura, produziu filmes de grande qualidade internacionalmente reconhecidos. Embora em todos os lugares a oposição entre cinema clássico e moderno balize o debate sobre linguagem, aqui, o caráter simbólico dessa produção, que tem como maior nome Glauber Rocha, parece dificultar aos realizadores uma opção sem culpas pela forma clássica de narrar. Colocando em termos simples, é como se fosse um pecado mortal fazer filmes à maneira consagrada por Hollywood.

Não sugiro aqui negar a importância do cinema novo, mas situá-lo mais adequadamente em seu contexto histórico e político. Fazer filmes de estrutura clássica não significa necessariamente aderir, de saída, ao projeto político A ou B. Para simplificar, há filmes clássicos de direita e há filmes clássicos de esquerda.

Nesse quadro, os realizadores argentinos, ainda que o debate lá também evidentemente se oriente pela oposição entre cinema clássico e moderno, parecem mais capazes de se assumirem, com menos crises de consciência, se assim desejam, como realizadores clássicos.

Em segundo lugar, em termos históricos, nossa produção ficcional, ao contrário de lá,  sempre esteve e segue aparecendo muito ligada à dramaturgia televisiva. A despeito da sobreposição e de muitos elementos comuns, o domínio de uma linguagem cinematográfica passa por um caminho específico. Sobretudo a atuação e os roteiros televisivos, nesse sentido, trazem marcas muito específicas, que não produzem bons resultados no cinema.

Terceiro, mas não menos importante, temos uma cultura que valoriza em demasia o aspecto lúdico do trabalho do realizador cinematográfico, como artista, e pouco a disciplina e a técnica fina necessárias para produzir boas obras. A desvalorização do trabalho com os roteiros é bastante exemplar nesse sentido. E essa é mais uma área a que os argentinos parecem dar maior atenção.

A Mostra de Cinema Argentino, que acontece no Cine UFG, entre 18 de outubro e 7 de novembro, permite refletirmos sobre essas diferenças entre a produção deles e a nossa.

Ela oferece um panorama parcial da produção argentina mais recente, concentrada num cinema de corte mais clássico, mas com matizes bastante variados - do cinema humanista feito com não-atores de Carlos Sorin aos thrillers policiais de alta voltagem de Pablo Trapero, Juan José Campanella e Marcelo Piñeyro, passando por ótimas comédias e também por "A Mulher sem Cabeça", um dos filmes da premiada Lucrecia Martel, cujos roteiros se distanciam da estrutura clássica prevalecente na Mostra.

Afinal, o cinema argentino é mesmo melhor que o brasileiro?

08/21/2012 - No Comments!

Beats e Gaps em “O Segredo dos Seus Olhos”

[vimeo http://vimeo.com/47544157]

Na última edição da Revista ]Janela[, faço um comentário audiovisual a uma cena de "O Segredo dos Seus Olhos", o filme de Juan José Campanella, na tentativa de demonstrar dois conceitos fundamentais para o design clássico de roteiros de cinema: o de beat e a ideia do fosso entre expectativas e resultados como motor das ações do protagonista. Confira acima.

Como nota cômica, é gozado mencionar que, no dia seguinte à publicação online da revista, Campanella, homenageado em Gramado este ano, deu uma entrevista a O Globo em que diz que o grande problema do cinema argentino são os roteiros. Na minha análise, sugiro justamente que o grande problema do cinema brasileiro são os roteiros e que a maior atenção a esse elemento da produção cinematográfica explicaria a superioridade dos argentinos em relação a nós num cinema ficcional de corte clássico.

03/25/2011 - No Comments!

Do Lado de Lá do Rio da Prata

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=J1n2npvv3uU&w=480&h=390]

Artigo Publicado originalmente no Jornal Opção.

Há sempre muita briga quando se compara o cinema argentino ao cinema brasileiro - gente argumentando por uma suposta superioridade do cinema ao sul do Rio da Prata, gente se batendo pela solidez de nossa produção, que em nada ficaria a dever à deles.

A despeito da polêmica, é evidente que a Argentina possui uma produção farta e diversa de altíssima qualidade no campo da ficção. Curiosamente, sua cinematografia documental ainda permanece em larga medida desconhecida no Brasil.

Eles por lá têm também suas próprias polêmicas, e o incensado Juan José Campanella, diretor do oscarizado “O Segredo dos Seus Olhos”, é um dos principais focos desses atritos; premiado e bem sucedido comercialmente, polemiza com muitos de seus pares ao defender a necessidade de um olhar mais comercial sobre o cinema, atacando a grande parcela da produção argentina que, como no Brasil, se financia com recursos públicos e gera pouco interesse nas platéias.

Passando ao largo da briga, Campanella é roteirista e diretor de melodramas sensíveis e inteligentes – característica que, a meu ver, une muitos dos melhores diretores do cinema recente argentino.

Além de Campanella, nomes como Carlos Sorín, Pablo Trapero, Daniel Burman, Lucía Puenzo, Marcelo Piñeyro, Adolfo Aristarain e Eduardo Mignogna, entre outros, guardadas suas peculiaridades e estilos em alguns casos radicalmente diferentes, têm em comum filmes de estrutura melodramática, que fogem porém do moralismo, do maniqueísmo e das emoções fáceis. Todos eles em algum momento dirigiram dramas humanos quase sempre singelos baseados em personagens construídos com complexidade, não raro retratando pessoas comuns e fatos cotidianos; filmes quase sempre calcados em grandes atuações que envolvem temas recorrentes como a família, a velhice e o desemprego, e outros delicados, como hermafroditismo ou a máfia de seguros no sistema de saúde.
Entre os melodramas de Campanella se destacam sobretudo o premiado “O Segredo dos Seus Olhos” e o também conhecido “O Filho da Noiva”. Apesar de considerá-los grandes filmes, é Carlos Sorin, entretanto, meu cineasta argentino favorito. Quase todos os seus filmes têm como cenário as paisagens monumentais da Patagônia. Nos quadros amplos e nos planos longos e silenciosos, aparecem anti-heróis simples e ingênuos - grande parte das vezes representados por não-atores - como o Juan Villegas de “O Cachorro” (veja o trailer acima) ou a Maria Flores e o Don Justo de “Histórias Mínimas”.

Pablo Trapero é um dos cineastas jovens argentinos mais conhecidos e premiados. “Abutres”, seu trabalho mais recente, foi parte da seleção oficial de Cannes em 2010. É um excelente thriller com um pano de fundo de crítica social, mas seu primeiro filme – “Mundo Grua” - segue sendo sua melhor realização. Rodado em preto e branco, o filme conta a história de Rulo, um desempregado que tenta conseguir trabalho como operador de gruas numa obra.

Para não ficarmos só no melodrama, cabe encerrar com a também conhecida Lucrecia Martel, cujo longa de estréia “O Pântano” é um retrato perturbador de uma família provinciana no nordeste da Argentina. Distantes da estrutura de um cinema clássico narrativo, a seus filmes não interessa a causalidade dos fatos, mas a própria tessitura da vida, onde certas ações não levam a nada, onde o acaso tem papel predominante e onde as coisas não fazem mesmo muito sentido. Seus outros dois longas: “A Menina Santa” e a “Mulher sem Cabeça” trilham caminhos semelhantes e são também muito perturbadores.