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09/07/2015 - No Comments!

Traduzindo David Bordwell

David Bordwell

David Bordwell

Imagino que ainda seja bastante frustrante para a grande maioria dos estudantes de cinema  no Brasil a incapacidade da maior parte da teoria lida por aqui em dialogar com a prática e em oferecer explicações satisfatórias para a atividade de fazer filmes. De fato, há pouco a se obter nesse sentido das análises de viés marxista e culturalista hegemônicas na academia brasileira.

Felizmente, de alguns anos para cá, através do esforço de Fernão Pessoa Ramos, algumas das obras de David Bordwell foram traduzidas para o português, trazendo frescor para a teoria fílmica por aqui. Figuras Traçadas na Luz é uma análise da encenação em quatro diretores ligados a tradições bem distintas mas que têm em comum estratégias de mise-en-scène que privilegiam a expressividade do quadro: o francês Louis Feuillade, o japonês Kenji Mizoguchi, o grego Theo Angelopoulos e o taiwanês Hou Hsiao-Hsien; Sobre a História do Estilo Cinematográfico traça um amplo panorama do estilo no cinema; e A Arte do Cinema: Uma Introdução, escrito em parceria com Kristin Thompson, sua esposa e também uma renomada pesquisadora do cinema,  é provavelmente o livro mais vendido no mundo de introdução aos estudos de cinema.

Transitando pelo formalismo, pela narratologia e pelo cognitivismo, Bordwell é hoje um dos estudiosos mais respeitados de cinema e suas análises nunca perdem de vista aquilo que grande parte da teoria contemporânea parece ironicamente esquecer em seus esforços por grandes teorizações: os próprios filmes.

Para além de seus livros, ensaios e artigos, Bordwell e Thompson mantêm o rico blog Observations on Film Art, onde postam cotidianamente suas reflexões. No intuito de ampliar o acesso do público brasileiro ao trabalho desses importantes pesquisadores, autorizados por eles, começamos a traduzir textos selecionados desse blog que vêm sendo publicados na Revista Janela.

Em A Rede Social: as faces por trás do Facebook, Bordwell analisa a importância e a riqueza das expressões faciais na narração de A Rede Social, de David Fincher.

Roteirografia é um resumo da participação de Bordwell em um congresso da Screenwriting Research Network, associação internacional de pesquisa sobre roteiros de cinema. O interesse maior do texto está em oferecer um amplo panorama dos caminhos de investigação desse campo específico de pesquisa ainda pouco conhecido no Brasil.

Em Preso entre Atos, Bordwell discute a validade da estrutura narrativa em três atos no cinema e as origens de sua onipresença.

Em breve, serão publicados também Mizoguchi e os segredos da imagem delicada, em que ele discute as estratégias de mise-en-scène do mestre japonês e Senso Comum + Teoria Fílmica, que analisa o processo de entendimento dos filmes pelo espectador, defendendo as vantagens de uma abordagem cognitivista da recepção dos filmes.

 

 

 

 

 

04/13/2011 - No Comments!

Montagem versus Encenação

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=Nz92VVp6et0&w=480&h=390]

Texto publicado no Jornal Opção.

Desde Sergei Einsenstein, tornou-se lugar comum dizer que o coração do cinema está na montagem. Contar uma história ou transmitir um raciocínio organizados através de uma sequência descontínua de fragmentos temporais seria a essência da linguagem da sétima arte.

O grande montador Walter Murch (Apocalypse Now, O Paciente Inglês, etc.) reforçou essa idéia, propondo a hipótese, em seu seminal “Num Piscar de Olhos” (Jorge Zahar Editores), de que a montagem cinematográfica emula a maneira pela qual nosso cérebro capta a realidade – descartando fatias menos importantes dos estímulos que chegam e se concentrando nos elementos fundamentais. Para Murch, o piscar dos olhos seria o equivalente, na vida real, do corte no cinema.

O professor David Bordwell, entretanto, um dos mais respeitados teóricos contemporâneos do cinema, contesta tais idéias. Para ele, o que ocorre é que o cinema se tornou nas últimas décadas crescentemente uma arte da montagem, em detrimento das possibilidades igualmente importantes da encenação ou mise-en-scène.

Por encenação, entenda-se o conjunto dos elementos cênicos que, articulados, ajudam a contar uma história e transmitir emoções e idéias: luz, cenografia, figurinos, a posição e movimentação dos atores.

Montagem e encenação se complementam, mas, num certo nível, se opõem. Dar preferência à encenação significa, grande parte das vezes, privilegiar planos-sequência, isto é, aqueles sem cortes e/ou planos fixos, onde a profundidade de campo e a movimentação dos atores, auxiliadas por uma disposição engenhosa de elementos de cenografia, têm mais relevância para contar a história do que os cortes entre vários tipos de planos.

A maioria dos diretores de hoje - e mais ainda em Hollywood – abandonou quase por completo os recursos da mise-en-scène. Todos operam utilizando um estilo muito parecido – praticamente uma fórmula - essencialmente calcado numa montagem cada vez mais acelerada. A quantidade de cortes nos filmes ajuda a demonstrar essa afirmação. Segundo Bordwell, “do começo do cinema sonoro até a década de 1960, a maioria dos filmes de Hollywood continha entre 300 e 700 planos, com uma duração média dos planos variando entre oito e 11 segundos.” Essa duração média cai para dois a oito segundos na década de 1990, com muitos filmes chegando a terem mais de dois mil planos. Embora os filmes de ação evidentemente puxem esses números, com suas montagens frenéticas, comédias românticas não ficam muito atrás, ele aponta, com filmes como Shakespeare Apaixonado (1998), Noiva em Fuga (1999) e Jerry Maguire (1996) tendo uma duração média de planos entre quatro e seis segundos.

Em oposição a essa maneira de contar histórias com imagens, para quem gosta de cinema, é fundamental saber que há um vasto conjunto de cineastas que relegam a montagem a segundo plano em seu estilo de dispor da linguagem cinematográfica. Os japoneses Kenji Mizoguchi e Yazujiro Ozu, o americano Orson Welles, o grego Theo Angelopoulos e o taiwanês Hou Hsiao-Sien, entre outros, são todos mestres no uso da profundidade de campo e do plano-sequência.

Em seu único livro publicado em português, “Figuras Traçadas na Luz” (Editora Papirus), David Bordwell analisa as estratégias de mise-en-scène de alguns deles. Como exemplo lapidar da força e do potencial da encenação, ele cita uma cena de “Paisagem na Neblina”, de Angelopoulos, onde a protagonista Voula, uma menina de 12 anos, é estuprada por um caminhoneiro. Na paisagem desolada, cinzenta e chuvosa de uma estrada, o caminhão para no acostamento. O caminhoneiro desce puxando a menina e entra com ela na carroceria. A câmera fica do lado de fora - nossa visão, toldada pela lona que a encerra – e, por longos minutos sem cortes, assistimos ao caminhão sem ver o que acontece lá dentro, mas sabendo-o bem. A posição da câmera, com o caminhão dominando o quadro e a estrada ao fundo magnetizam nosso olhar e tornam todo o acontecimento ainda mais chocante por sua “sinistra inevitabilidade”.

Conhecer esses mestres da encenação abre todo um novo horizonte em relação ao potencial da linguagem cinematográfica.